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Entrevista com Luís Otavio de Souza Leal, economista chefe do Conglomerado Financeiro Alfa.

Luís Otávio é economista chefe do Alfa. Bacharel e mestre em economia pela PUC/RJ, onde atuou como professor da instituição durante seis anos. Com mais de 20 anos de experiência no mercado financeiro, foi economista chefe e instituições como Pictet e Banco ABC Brasil, além de ter sido chefe de pesquisa da Fecomércio/RJ.

Para começar o nosso papo, como você enxerga o mercado de investimento em Fintechs?

Acho que temos uma notícia boa e uma notícia ruim para o mercado de Fintechs. A notícia boa é que este é um mercado que tem tudo para crescer exponencialmente nos próximos anos. Com a aprovação do cadastro positivo, a última grande barreira de entrada nesse mercado, que era a “informação de crédito” do consumidor, foi derrubada. Agora, qualquer Fintech pode ter acesso ao score de crédito do cliente, podendo com isso, oferecer taxas de crédito personalizadas. Além do mais, poderão ser mais competitivas, principalmente porque não terão os custos fixos dos grandes bancos. A má notícia, para aquelas Fintechs menos competitivas é que, mais cedo ou mais tarde, haverá uma forte consolidação na oferta, como acontece em qualquer mercado em franca expansão, onde apenas os fortes sobreviverão. Em outras palavras, se você não tem medo de concorrência, só temos boas notícias.

Após a contração do PIB em 2020, o que devemos esperar para 2021?

A perspectiva é que tenhamos um crescimento acima de 4%, o que não é visto desde 2010. Entretanto, esse resultado deve ser visto com ressalvas, uma vez que a maior parte dele virá do que se chama de carrego estatístico, um tipo de ilusão de ótica matemática. Se tirarmos esse efeito da conta, o crescimento de 2021 ficaria entre 1,5% e 2,0%, nada muito diferente do que observamos nos anos anteriores a 2020.

Quais os riscos para que esse resultado não se concretize?

Temos riscos externos, como o surgimento de uma pressão inflacionária que alteraria o cenário de liquidez abundante, o risco de novos problemas com a Covid-19, mas, principalmente, o risco interno de perda do controle fiscal. Qualquer tentativa de rompimento do teto dos gastos pode trazer grande instabilidade para o mercado financeiro, influenciando a cotação do dólar e pressionando o Banco Central a subir os juros antes do previsto. Essa combinação pode até não inviabilizar um crescimento em 2021, mas mataria qualquer chance de isso acontecer em 2022.

Como se daria esse crescimento? Qual seria, neste cenário, o novo normal?

Essa é a pergunta que atormenta a todos, do empresário ao trabalhador: “será que o meu emprego vai sobreviver ao novo normal após a pandemia?”. A despeito da dificuldade em responder de forma acurada a essa pergunta, com as informações que hoje dispomos, já dá para ter “um cheiro”. É certo que setores ligados à logística, tecnologia da informação e higiene deverão sair fortalecidos. Entretanto, setores ligados ao lazer e ao entretenimento, além de demorarem mais para voltarem ao normal, provavelmente terão que se reinventar.

A inflação foi um dos grandes assuntos no segundo semestre de 2020. Ela deve ser considerada como um risco para 2021?

Não acredito. Para quem coloca a inflação como um risco importante, deve-se perguntar de onde viria a pressão para isso acontecer. Todas as análises indicam que teremos um crescimento do desemprego no início do ano e o auxílio emergencial não parece que vai ser prorrogado. Portanto, uma eventual alta da inflação não aconteceria pela via do consumo. Também faz parte do cenário básico da maioria dos analistas que 2021 será um ano de dólar fraco. Ou seja, a pressão cambial que impactou a inflação em 2020 não deve se repetir em 2021. Mesmo com a possibilidade de ocorrência do fenômeno climático do La Niña, não se espera uma alta dos alimentos como ocorreu em 2020. Deste modo, acredito que estamos bem confortáveis em prever uma inflação entre 3,0% e 3,5% em 2021, após fechar 2020 próximo a 4,30%.

Você citou que a inflação em 2020 foi de 4,30%, mas todos reclamam que ela foi muito maior que isso. Por que a sensação de alta dos preços não é observada no índice que deveria medi-la com precisão?

Aqui temos outra ilusão de ótica da matemática. Um índice de preços como o IPCA é montado a partir de uma pesquisa de orçamentos familiares (POF) que mede qual seria a cesta de consumo média de uma família padrão. Acontece que a média não representa nenhum número individualmente, muito menos a família padrão. Portanto, podemos dizer que o IPCA é a medida de inflação de todo mundo e a de ninguém, uma vez que não reflete a cesta de consumo individual de cada um, mas de uma média abstrata, calculada por amostragem. Para piorar a situação, basta notar que a média é obtida de um universo de famílias que ganham entre um e 40 salários-mínimos. Ou seja, colocando juntas famílias que vivem com, aproximadamente, um mil reais até famílias que vivem com 40 mil reais por mês. Seria querer demais que alguém se identificasse com essa média.

Na resposta com relação à inflação, você mencionou a tendência a vermos uma perda de valor do dólar. De onde viria essa tendência?

A tendência estrutural desse movimento viria de fora. A ideia aqui é que com a política monetária expansionista implementada pelo Banco Central americano, junto com uma política fiscal também expansionista, implementada pelo novo governo de Joe Binden, a moeda norte-americana deveria perder valor. O Brasil certamente será beneficiado por esse movimento externo, mas em que grau vai depender de fazermos ou não o nosso dever de casa.

Você acha que esse movimento será duradouro?

O mercado acha que sim. Eu tenho minhas dúvidas. Uma coisa que observei durante vários anos acompanhando a economia americana é a sua resiliência e a capacidade de reagir a estímulos. Já vi isso acontecer várias vezes e, como o grau de estímulos a que ela está sendo submetida, tenho poucas dúvidas de que, no segundo semestre do ano, as projeções de crescimento para os EUA serão revistas para cima. E a tendência de dólar fraco será revertida.